Este é um blogue que surge no âmbito da disciplina de História do Património (Professora Marta M. Gomes), inserida na área de Humanísticas - Turismo, dos Cursos Secundários Profissionalmente Qualificantes. Durante o decorrer deste ano lectivo serão aqui colocados excertos dos trabalhos realizados pelos alunos no sentido de dar a conhecer o património existente em S. Tomé e Príncipe, mas também, visando o objectivo de promover turisticamente este belíssimo arquipélago. Pretende-se ainda, promover uma cidadania activa, no que diz respeito à preservação e manutenção do Património existente.

Esperamos que encontre aqui razões suficientes para visitar a nossa casa e para todos os que já aqui vivem, esperamos que consigamos o objectivo de espalhar a mensagem de que é preciso preservar a nossa história a fim de legar às gerações futuras uma herança digna de ser respeitada e apreciada.

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domingo, 23 de dezembro de 2007

Roça Ponta Figo

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“A Roça Ponta Figo situa-se no norte de S. Tomé, mais concretamente no distrito de Lembá, distanciando-se da Cidade Capital por aproximadamente 29 km. (…) A Roça Ponta Figo foi uma empresa agrícola construída em 1928-1929. Como todas as Empresas Agrícolas, teve como principal objectivo a produção de cacau, café e também outras culturas como, mandioca, milho, o cultivo da palmeira para a produção de óleo de palma e cana-de-açúcar para o fabrico de aguardente. Estas contribuíam para o desenvolvimento e progresso da Metrópole (Portugal). (…) A mão-de-obra que trabalhava nas plantações era essencialmente constituída por trabalhadores contratados que vinham de Cabo Verde, Moçambique, Angola, e Guiné-Bissau. Estes trabalhavam em condições sub-humamas, embora viessem trabalhar em regime contratual. (…) Na era colonial, a empresa juntamente com as suas 16 colónias, nomeadamente António Morais, Ponta Figo Praia, Ribeira Funda, Ribeira Palma, Rosema, Ribordelo, Stª. Teresa, Monte Forte, Generosa, Bom Sucesso, Costa Santo, Cascata, Fortunato, João Paulo, Mendes Leite e Manuel Moras, funcionava em unidade para melhorar a qualidade e a quantidade da produção. (…)

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Por roça entendemos uma unidade agrária típica da época colonial, composta por um núcleo central com um vasto terreiro em torno do qual se situam a casa do administrador da roça e as habitações dos diversos empregados, a senzala, o hospital, oficinas, diversos armazéns, lavandarias, etc. Todo este complexo era circundado por campos de cultura de cacau, café, cana-de-açúcar, copra, bananeiras entre outras existentes para o sustento dos nativos, bem como para o desenvolvimento da economia da metrópole. (…) A roça Ponta Figo seguia a estrutura típica das roças da altura. Um núcleo central ou sede, neste caso a Roça de Ponta Figo constituída pela casa do administrador ou «casa de patrão» como os trabalhadores da empresa lhe chamavam; as casas dos empregados denominadas de senzala (o mesmo nome dado ao espaço onde anteriormente, no regime de escravatura, alojavam os escravos), o complexo hospitalar composto normalmente por um bloco operatório, uma enfermaria e uma casa mortuária, os armazéns, os secadores eléctricos ou a lenha, as estufas destinadas á preservação do cacau, as lavandarias, a cantina e a padaria. Tinham ainda um sistema eficaz de saneamento do meio constituído entre outras, por algumas casas de banho comunitárias, chafarizes e água potável canalizada. Existia uma ou mais capelas, onde devotamente participavam tanto trabalhadores como os donos das roças. (…) A 30 de Setembro de 1975, após independência, dá-se o processo de nacionalização das roças. (…)

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É um facto que a maioria das empresas, incluindo Ponta Figo transformaram-se em empresas fantasmas, abandonadas e degradadas em todos os sentidos, pelo que o estado foi aconselhado a desligar-se da administração das roças, passando-as para as mão de privados, dando assim início ao processo de privatização das roças, o que aconteceu sob a forma de venda de loteamentos a nacionais. Todos estes acontecimentos trouxeram novas necessidades de adaptação ao sistema estrutural empresarial nomeadamente no que diz respeito à preservação dos edifícios das antigas empresas agrícolas, como no caso da Roça Ponta Figo. Muitos destes espaços passam a adquirir novos desempenhos e novas designações, alterações que influenciaram de forma directa a vida dos trabalhadores e residentes. (…) Quando se deu início à distribuição das roças aos moradores, estes tiveram enormes dificuldades económicas na gestão das suas parcelas. Na verdade, as roças que anteriormente tinham estado voltadas sobretudo para o cultivo do cacau dando lucros à metrópole, agora não conseguem garantir a subsistência daqueles que foram beneficiados com esta distribuição de parcelas de terra. Assim, os moradores, agora proprietários começaram a tentar tirar proveito de tudo quanto ela possuía, como o abate das árvores de forma a garantir a subsistência das suas famílias. Hoje em dia a população de Ponta Figo vive essencialmente da criação de gado caprino e suíno destinado ao abate e comércio. Outros têm pequenos negócios como quitandas e/ou salões de cabeleireiro, cuja maior parte dos seus clientes são os habitantes da comunidade que não obstante os poucos recursos económicos dão primazia à aparência. (…)

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Embora não se pretenda dar à Roça Ponta Figo o seu antigo carácter empresarial é necessário e urgente o aproveitamento das infra-estruturas ainda existentes e criar novas que estimulem o empreendimento turístico, abrindo desta forma, novas oportunidades de trabalho para todos os membros da comunidade. É necessário investir na construção de novos edifícios/infra-estruturas socioeconómicas que promovam o desenvolvimento desta e outras comunidades, como escolas, jardins, creches, hospitais. É preciso investir na educação promover a sustentabilidade dos jovens que querem aceder a bolsas de estudo a fim de dar continuidade aos mesmos, é necessário promover seminários e formações que contribuíam para a educação cívica e profissional, para que todos se tornem cidadãos activos. Verificamos no entanto que, há consciência de que uma boa imagem do local, não depende somente da construção e da reabilitação das infra-estruturas, do investimento do governo, mas sobretudo da mudança de mentalidade por parte da população, para que estes possam preservar o património de modo a abrir as portas para o desenvolvimento de um turismo rural. (…) Segundo a lei patrimonial vigente, no artigo nº11, todas as roças são consideradas património rural, sendo assim a Roça Ponta figo não foge à regra. Como património que é, tem muitas potencialidades naturais e arquitectónicas que podem ser aproveitadas para a promoção e desenvolvimento turístico. Não só por isso, mas também por ter excelentes vias de acesso, água canalizada, energia eléctrica permanente, o que faz com que a Roça Ponta Figo esteja permanentemente iluminada.

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É necessário investir na roça de modo a aproveitar as suas potencialidades em prol do desenvolvimento do turismo rural. O que nós propomos nesse sentido é por exemplo a construção de um parque de campismo, onde as pessoas pudessem passar os finais de semana em contacto directo com a natureza, usufruindo da paz e tranquilidade que a mesma nos oferece. (…)”

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Trabalho realizado por:

Adilsa Camblé, Adozinda de Assunção, Adriana da Glória, Aycila Aguiar, Liliane Moreira e Suzete Brandão.

1 comentário:

João Paulo disse...

Gostei muito das fotografias e dos comentários que fizeram à Roça Ponta Figo, onde o meu Bisavô Manuel Morais e o seu irmâo António Morais dedicaram grande parte das suas vidas, desde 1890.
Aliás o meu Bisavô veio a falecer em 1909, resultado de uma doença contraída em São Tomé.

Melhores cumprimentos

João Paulo Morais de A. Simões

jpsimoes@sapo.pt